quarta-feira, 23 de outubro de 2013

(Continuação)

(Continuação)

Faltava... Por que quando a coruja viu aquela mansão de barro, feita pelo João, ela ficou encantada e sua cabeça ficou girando! A partir de então, é lá que a coruja dorme! Junto com o João-de-barro, claro!
O urubu chegou pousando ao lado daquele ninho de barro e perguntou ao João se ali era uma pousada! A coruja saiu lá de dentro querendo imbicar o urubu:
- “Pousada? Você acha que aqui é a casa da mãe Joana”?
- “Não, eu acho que aqui é a casa do João, mas eu fiquei sabendo que você tá dormindo aí coruja...”!
- “Ah é? E eu posso saber como é que você ficou sabendo”?
O urubu fingiu de bobo:
- “Foi um passarinho verde que me contou”!
A coruja ficou uma arara:
- “E o que mais que o passarinho verde idiota te contou”?
- “Contou que tem casal aí que vai receber a visita da cegonha”.
- “Já tão inventando que eu vou ser mãe?!”.
O urubu comentou:
- “Não citaram nomes, mas independente de quem for, acho que você seria uma boa mãe, coruja”!
- “Vira essa boca pra lá urubu”!
- “Por quê? Tô com mau hálito”?
- “Não, você tá é com urucubaca pra cima de mim! Eu não quero saber de bebê por agora”!
O canarinho chegou trocando as pernas, aliás, trocando as asas e cantando de galo:
- “Quem não quer beber agora”?
- “Não é pro seu bico”! Respondeu a coruja impaciente!
O urubu quase botou as tripas pra fora de tanto rir!
- “Por que você tá rachando os bico urubu”?
- “Se eu fosse você, eu saía voando daqui canarinho, senão você vai tomar outra”!
- “Já tomei umas e vou tomar outras... Hoje eu quero-quero tomar todas, até chamar urubu de meu lôro”!
- “Não vai me chamar de lôro nada! Pode ir cortando suas asinhas meu amigo!”.
- “Por falar em amigo, vâmo ali comigo urubu, que eu vou te apresentar um canarinho amigo meu”.
- “Apresentar um amigo seu? Você não tá nem conseguindo falar canarinho”!
- “Quem não tá conseguindo falar é esse amigo meu! Ele até tentou, mas eu não consegui entender nada”!
- “Tá vendo como você já tá ruim canarinho!? Não conseguiu entender nem o que seu amigo tava falando, e olha que ele fala a sua língua”!
- “Ele não fala a minha língua não”!
- “Mas você disse agora que seu amigo também é um canarinho”!
- “Belga! Ele é um canarinho belga e não entende o português! E eu não entendo tico-tico nenhum que ele fala! Entendeu?”.
- “Entendi, não precisa falar mais nada... Vai lá e canta”!
- “Eu ir lá e cantar ele? Tá me estranhando urubu?”.
- “Cantar ele não! Vai lá e canta com ele por que quem canta seus males espanta!”.
- “Eu vou é beber mais”!
- “Bem, te vi, te aconselhei, mas se você quer beber mais, o problema é seu canarinho! Ema, ema, ema, cada um com seus problemas!”.
- “Você não vai molhar o bico urubu?”.
- “Meu estômago embrulha só de sentir o seu bafo de álcool”.
- “Ah falô viu... E o seu bafo de carniça é muito agradável”.
A festança continuava com a dupla Pica e Pau que começou a cantar os sucessos da banda “Asa de Águia”!      
A pombinha passou voando com a rolinha atrás, enquanto o gavião tentava comer o ovo da codorna! E naquela confusão toda, o pato acabou machucando a pata e entrou “pelicano”!
A festa terminou tarde da noite! Em pouco tempo, todos já tinham levantado voo e não se ouvia mais nenhum pio vindo da frondosa árvore! Mas na semana seguinte todos estariam reunidos ali de novo, para esse divertido encontro que era sempre do peru!



(Caju)

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

O PARAÍSO DOS GUARDA-CHUVAS


Guarde bem o que eu vou dizer: Os guarda-chuvas têm vida própria!
Ao comprar um guarda-chuva, saiba que em breve ele não será mais seu! Por isso, é melhor não se apegar e nem criar nenhum vínculo sentimental com o seu guarda-chuva, por que quando você menos esperar, ele vai te deixar sem deixar pistas pra onde foi!
O guarda-chuva não nasceu para ter dono!
Não existe nenhum relato que comprove um caso de relação duradoura entre o homem e o guarda-chuva! 
O guarda-chuva é um objeto independente, dotado de um poder sobrenatural de se tornar invisível e desaparecer sem deixar vestígios!
Todos os dias, no mundo, milhares de guarda-chuvas somem para nunca mais voltar!   
Todo mundo já perdeu um guarda-chuva! Agora eu pergunto: Alguém já achou algum?
Pois é... E pensando sobre isso, eu cheguei à conclusão que deve existir um lugar desconhecido para onde vão todos os guarda-chuvas perdidos! E eu imagino que nesse lugar eles se encontram com as sombrinhas, constituem famílias e se proliferam, se multiplicam nesse mundo paralelo que chamo aqui de: “Paraíso dos Guarda-Chuvas”!
E minha imaginação vai mais longe ainda! Acho que o mundo será invadido e dominado pelos guarda-chuvas!   
Portanto, se você não quiser contribuir para que essa invasão aconteça, deixe seu guarda-chuva guardado!
Por que a qualquer momento, poderá cair sobre nós uma chuva de guarda-chuvas e seremos espetados por suas extremidades pontiagudas!
Mas quem sabe também, os guarda-chuvas retornem para nos resguardar e nos proteger dos riscos meteorológicos aos quais estamos expostos?
Bom, pense aí! E caso você descubra o segredo de para onde vão os guarda-chuvas, por favor, não guarde segredo!


(Caju)


quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A OLIMPÍADA DO DIA-A-DIA


Toca o despertador! É dada a largada! Começa mais uma maratona!
Arremesso o cobertor para o lado e pulo da cama!
Em primeiro lugar, preciso chegar até o banheiro para conquistar o “trono”, ou melhor, sentar nele!
Mas no percurso entre o meu quarto e o banheiro, existem vários obstáculos que eu preciso superar: roupa, tênis, mochila, copo, prato, garfo... Tudo espalhado pelo chão!
Chego ao banheiro, ocupo o meu lugar no “trono”, solto o “bastão”, ligo o chuveiro e me atiro na água!
Peito, costas, dou uma arrancada na sujeira do corpo todo!
Saio rapidamente do banho! Cada minuto é importante!
Preciso garantir o meu lugar, sustentar minha posição!
E a disputa por uma vaga é muito grande!
Visto a camisa, a calça, coloco o sapato e saio correndo de casa!
O meu desafio agora é chegar até o ponto de ônibus!
Essa é uma etapa difícil, uma prova de rua que exige de mim, muita habilidade!
Salto à distância sobre buracos na calçada, contorcionismo para desviar dos retardatários, precisão ao atravessar avenidas entre os automóveis, enfim, são movimentos sincronizados, uma verdadeira ginástica para conseguir alcançar meu objetivo que é estar entre os
45 membros da comitiva que vai viajar até o centro da cidade!
Se eu ficar para trás, todo o meu esforço terá sido em vão e eu não quero perder viagem!
Dentro do ônibus, pendurado na barra, faço uma sequência de movimentos arriscados, evitando uma queda, até chegar o momento final da parada!
O ônibus abre a porta e num salto duplo, eu bato com um pé no meio-fio e caio com o outro já na calçada!
É a reta final!
Faço a última curva, à esquerda, contornando o poste da esquina! Cruzo a linha de chegada e carimbo meu passaporte, ou melhor, meu cartão de ponto!
Garanto assim, minha permanência no grupo de elite, ou seja, daqueles que estão empregados, nesse mercado tão concorrido, onde, qualquer falha, pode te desclassificar!



(CAJU)


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

PARABÉNS FILHO!

Ontem à noite, esperei o relógio marcar meia-noite para te dar parabéns pelo seu aniversário, te dar um forte abraço e lhe dizer algumas palavras! Mas quando entrei no quarto, meus olhos se encheram d’água, meus braços não se estenderam e minha voz ficou embargada! E mais uma vez, você viu seu pai chorar! Sou “manteiga derretida” mesmo e daí?! E não ri de mim não, me respeita que eu sou seu pai!
Pensando bem, eu não tenho moral nenhuma pra te pedir para não rir de mim, né filho! Afinal de contas, você é minha melhor plateia!
Diariamente, quando estamos à noite em casa, eu te uso de cobaia para testar os quadros, textos e personagens que crio e escrevo!
E você é uma plateia da melhor qualidade! Entende meu humor “non sense”, não me poupa de suas críticas e ainda me ajuda com suas ideias!
Você não é um cara qualquer, você é “o cara”! E não sou eu que digo isso, essa é a opinião de todos da família, é a opinião dos meus e dos seus amigos... E eu concordo com eles!
Eu, chato e implicante, nem pareço ser pai de um cara tão “de boa” como você! Aliás, quem vê a gente junto, não acredita que somos pai e filho, tamanha cumplicidade que temos um com o outro!
Na verdade somos mais que pai e filho, somos parceiros, amigos, confidentes, companheiros e claro, bagunceiros (nossa casa que o diga)!
Então é isso filho, te desejo toda a felicidade do mundo, por que é isso que você me proporciona! E não só desejo como faço de tudo para que você seja feliz!
TE AMO!


(Caju) 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Peço licença a você, Pai, para postar aqui no meu blog, uma das poesias do seu livro “Poesias Gerais”, lançado poucos dias antes de sua partida! A mamãe, e nós, seus filhos, estamos sofrendo muito com a sua ausência, mas estamos felizes e orgulhosos por você ter conseguido realizar esse antigo sonho de publicar seu livro!
Sabe, Pai, hoje o Dudu leu essa poesia lá no Graffite, e muita gente se emocionou! Estão me perguntando onde acham o livro pra comprar! Legal demais né Pai?! Tá arrasando hein! Os exemplares do livro que você deixou já acabaram, mas fica tranquilo por que nós vamos mandar imprimir                                                                          mais!
                                                             Tô chorando sim Pai... O motivo é justo.


REMORSOS

A você que é filho,
certamente ignora,
tudo o que lhe virá na mente,
quando ficar sem pai.
Pai quer que entenda,
nega, repreende,
pra que o filho aprenda.
Mesmo as discórdias,
os ressentimentos havidos,
irão livrá-lo do remorso
e atenuar seu choro.
Os ponteiros dos relógios
avançam implacavelmente,
rumo ao fim.
E olha! Não digo por mim!
Abrace agora enquanto é tempo,
enquanto há tempo
de carinho entre filho e pai.
Depois será ontem,
será passado,
será nunca.
Abrace-me agora,
enquanto vivemos
e estou a seu lado,
curtindo você.
Amando-o muito
nesta dimensão.
Depois então, só lembranças,
de que teve um pai.


(Antônio Pereira Magalhães)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

ESTAMOS N’ÁGUA COM ESSA SECA!


O inverno acabou, mas o calor continua! Aliás, esse inverno foi um inferno! Que calor é esse?
“Quem tá na chuva é pra se molhar”! Mas cadê a chuva?

De acordo com a previsão do tempo, quem estiver esperando cair água, pode tirar o cavalinho da chuva!
Eu pergunto: Tirar o cavalinho de qual chuva?

O ser humano nunca se preocupou com a natureza e agora está pagando o pato! Aliás, os patos também estão sem água!
A coisa tá feia, o tempo fechou! O tempo fecha, mas não chove!

Chegou a primavera, chegou o final do mês, chegaram as contas pra pagar, só não chegou a chuva, ou melhor, até chegou mas não ficou nem pra tomar um cafezinho! Estava de passagem e passou tão depressa que só deixou o “ar da graça”, água que é bom, nada!

Como diria Roberto Carlos: “Tá uma brasa, mora”!
Moro sim! E onde eu moro é tão quente que esses dias bateram lá na porta de casa e quando eu abri, era um peixe pedindo um copo d’água! Coitado!
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto... e o peixe rapidamente lambeu minha cara!
Isso foi a gota d’água para mim, aliás, para o peixe!



(Caju)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

 
ACORDA!

Um pesadelo só termina quando você acorda!
É preciso despertar, abrir os olhos e colocar os pés no chão para sentir o alívio de estar de volta à realidade!
Pesadelos só aparecem para os que dormem!
Não se entregue ao sono, levante!
Você tem um compromisso muito importante: Com você mesmo!
Não se atrase! Não te deixe esperando! Você precisa da sua atenção! Vá ao seu encontro!
Deixe o passado para trás, a preguiça de lado, e siga em frente!
Vá! Dê uma volta, passeie dentro de si! Descubra-se!
Você conhece tão bem os outros, mas não sabe nada sobre si mesmo!
Não se ignore! Dê ouvidos aos anseios de sua alma, aos reclames de seu espírito!
Não tenha medo desse desconhecido que é você!
Não se acovarde! Não fuja de si!          
Quem finge de morto, finge viver!
Não se faça de vítima e nem tenha dó de si, por que se alguém prepara armadilhas para você, esse alguém é você mesmo!
Seja honesto contigo e não culpe os outros pelo que te acontece!
E se sua vida dá um livro, seja romance, comédia, um drama ou tragédia, o autor da história é você!
A vida não é um jogo pra se assistir de arquibancada!
Ficar torcendo para que as coisas deem certo, é confiar no acaso, é contar com a sorte!
É preciso entrar em campo, suar a camisa, driblar as adversidades! Só assim se conquista um objetivo!
Claro, não se ganha sempre, derrotas fazem parte!
Tente enxergar em cada crítica, observação ou correção que seu comportamento mereça a oportunidade de melhorá-lo!
Olhe-se no espelho, se enxergue, se reconheça!
Não tenha preguiça de começar um novo dia!
Quando se perde tempo, é vida que se está perdendo!

ACORDA!


(Caju)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A COZINHA

Era um feriado. A família toda tinha ido para o sítio. Com portas e janelas trancadas, a casa tinha como hóspede, apenas o silêncio. Foi então que, em plena madrugada, a panela destampou a falar. Reclamava por ter sido deixada suja, sobre o fogão. O fogão acordou assustado, se acendeu com aquele falatório e resolveu abrir a boca também, ou melhor, suas 4 bocas! Começou a discussão! O forno esquentou! O garfo não deu colher de chá e aproveitou para dar suas espetadas! A faca quis cortar o assunto, mas o leite já tinha entornado! A chapa estava esquentando!  Sem entender nada, a panela de pressão, impressionada, começou a apitar, querendo pôr ordem naquela bagunça! A lavadora não se incomodou, afinal, roupa suja se lava em casa. O palito de fósforo até que tentou, mas foi riscado da conversa e ficou de cabeça quente. O botijão de gás queria explodir, mas preferiu vazar. A torneira estava pingando de sono e a pia não deu um pio. Tentando acalmar os ânimos, a panela velha fez comida boa e o bule ofereceu um chá. A batedeira gostava daquele bate-boca. Todos falavam ao mesmo tempo. A travessa atravessou o assunto. A geladeira se manteve fria. O forno, apesar de micro, tirava onda. A tábua de bater carne, cansada de apanhar, deslizou pelo escorredor de prato e entrou no armário. Deram asinha para a xícara e ela não deu colher de sopa; começou logo a fofocar, entregando de bandeja, algumas intimidades do pires, que pirou. O exaustor já estava exausto com tudo aquilo e a cafeteira estava a todo vapor. O caos estava instalado! Um não escutava o outro; todos falavam pelos cotovelos do encanamento e ninguém filtrava nada; com exceção do filtro de barro. A louça estava uma pilha. A confusão só parou quando o dia amanheceu. E no frigir dos ovos, se fosse bater tudo no liquidificador, aquele bate-boca só serviu para gastar energia à toa! Fizeram enchente num copo d’água e no final das contas, foi tudo pelo ralo. Melhor assim, por que a cozinha voltou a ser, o melhor lugar da casa.  


(Caju)

A SALA DA CASA


Na calada da noite, enquanto a família dormia, a mobília da sala cochichava cautelosamente. O sofá, com o pé quebrado, reclamava de dor! Suas amantes, as duas poltronas, não saíam do seu lado! A velha mesa de estar, já não estava lá essas coisas e as cadeiras, também idosas, já estavam descadeiradas, de pernas bambas. No canto da sala, o “Puf” estava murcho, de baixo-astral. O tapete, estirado no chão, não agüentava mais ser pisado por todos. Íntimas, uma da outra, a janela se abriu para a cortina, que ficou agitada. Acostumada, em outros tempos, a ser o centro das atenções, a mesinha de centro ficava agora num canto. Todos se queixavam de algum problema. O clima estava pesado. A cadeira de balanço achava que era um “encosto”. O quadro estava pregado, cansado de ser prensado contra a parede. A televisão, de tanto dar notícia da vida alheia, acabou queimando sua imagem. A antena, descolada, sumiu sem dar sinal. O vídeo-cassete queimou o filme quando travou uma briga com o recém-chegado DVD e desde então, passou a carregar esse peso nas costas. Ninguém percebeu, mas bateram na porta da sala e ela, sempre tão receptiva, ficou triste e não quis se abrir para ninguém; trancou-se a sete chaves, ou melhor, a tetra-chave. O olho mágico viu tudo, mas não pôde fazer nada. De tanto pegar o sol forte da tarde, a parede começou a descascar. Pior era a situação do teto que, além de ter sido rebaixado, tinha sua privacidade invadida pela infiltração, sempre que chovia. O pomposo lustre já não brilhava, vivia apagado. O velho relógio de parede não despertava mais tanta atenção. Ninguém lhe dava corda. Na verdade, todos os móveis estavam estagnados, imóveis, cheios de problemas, à espera de uma luz. Com o amanhecer do dia, vieram os primeiros raios de sol iluminando toda a sala. E antes que a família acordasse, a mobília se recompôs, afinal, sempre chega uma visita fora de hora. E tal visita seria recebida ali, onde alguém da casa ficaria fazendo sala.




Caju
O QUARTO


O casal entrou no quarto. Ele fechou a porta, ela apagou a luz e eles foram para cama. Estavam doidinhos para... dormir.
Não demorou muito e cumpriram seu propósito. Dormiram.
Assim que ela virou para o lado e ele começou a roncar, o ventilador de teto deu o ar da graça e começou a ventilar fofocas sobre o casal.
O velho livro de cabeceira, cheio de orelha, queria ouvir tudo.
O ar condicionado ficou gelado, não tava no clima para fofocas e tinha medo que ela e ele acordassem com aquele burburinho. Os dois travesseiros também sentiam o peso da consciência... do casal que dormia! Já o estrado da cama, adorava sentir o peso daquele coxão sobre ele! O colchão reclamou: “Que papo é esse? Sai fora estrado”! “Você que podia sair fora colchão! Eu to falando é do coxão dessa mulher que tá dormindo aqui em cima, e você está entre eu e ela! E outra, se eu sair fora você cai”. O colchão retrucou: “Cai na real estrado, você acha que ela vai deixar de dormir num colchão macio pra dormir num pau duro?”! O estrado respondeu num estalo: “Ela gooosta”!
O criado ficou mudo. O abajur, como sempre desligado, já tinha apagado antes mesmo do casal se deitar.
O edredom, grosso como sempre, falou para o ventilador de teto parar de ficar dando volta e contar logo as fofocas que sabia!
O ventilador de teto provocou: “Qual é a sua edredom?! Pior é você que tem dupla face”!
O cobertor esquentou: “Pior sou eu que to na mão de ladrões”!
O lençol, sempre muito fino, se preocupou: “Você está nas mãos de ladrões, cobertor?”. “To nas mãos e no corpo todo!”. “Quem são esses ladrões?”. “É esse casal que tá dormindo! Cada hora é um que rouba o cobertor, aí eu fico pra lá e prá cá a noite toda e no final eles me jogam no chão”!
A cama resmungou: “Sacanagem é o que eles fazem comigo, aliás, sacanagem é o que eles fazem em cima de mim! Eu fico até rangendo”.
O cabide saiu do armário só com uma camisa. A cômoda ficou incomodada, achou ridículo. A fronha achou baba.
Para evitar maiores problemas, o despertador despertou, o casal acordou e todos se calaram para assistir a mais uma sessão de amor!      


(Caju)